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6707602 | USO DE FILME NO ENSINO DE ENFERMAGEM PARA COMPREENSÃO DA SUBALTERNIDADE DE GÊNERO E SEU ENFRENTAMENTO PELAS MULHERES | Autores: Lucimara Fabiana Fornari ; Rosa Maria Godoy Serpa de Fonseca ; Deborah Bretas |
Resumo: **Introdução:** A aprendizagem sobre as questões de gênero por meio de filmes consiste em uma estratégia inovadora no ensino de Enfermagem, na medida em que usa a arte para compreender a vida real. No caso do ensino de enfermagem e gênero, a partir das cenas e narrativas envolvendo os personagens é possível identificar a construção dos papeis sociais atribuídos a homens e mulheres, bem como compreender seu processo de produção e reprodução social. **Objetivos:** analisar o filme “Lemon Tree” identificando as contradições de gênero e as estratégias de superação por parte das mulheres; verificar a potência do filme como estratégia para identificação e reflexão das questões de gênero no ensino de Enfermagem. **Metodologia**: Trata-se de estudo de caso descritivo de abordagem qualitativa, com base na Teoria de Intervenção Práxica de Enfermagem em Saúde Coletiva1. A análise foi realizada coletivamente pelos alunos, num contexto de Oficina de Trabalho Crítico Emancipatória2, com base em um roteiro semi-estruturado. A demanda era discutir questões relacionadas ao reconhecimento dos cenários onde se dá a trama, à caracterização dos personagens femininos e masculinos, à identificação das relações intra e intergêneros estabelecidas entre eles, e as formas de enfrentamento das contradições que emergem destas relações. O dados empíricos foram submetidos a análise de conteúdo temática3. Para a compreensão do fenômeno da subalternidade social das mulheres foi utilizada a categoria analítica gênero4. **Resultados:** O filme retrata a história de uma palestina, chamada Salma, que tem sua plantação de limões ameaçada pela chegada de um novo vizinho, o Ministro da Defesa de Israel. Imediatamente, a Força de Segurança Israelense declara que os limoeiros colocam em risco a segurança do Ministro e, por isso, precisam ser derrubados. Junto com o jovem advogado Ziad, Salma resolve levar o caso à Suprema Corte de Israel e tentar salvar sua plantação. O aparato militar colocado na residência do ministro, ao invés de intimidar, provoca na mulher palestina uma resistência muda e determinada. Salma é viúva, mãe de três filhos, mora sozinha e vive dos rendimentos da plantação que foi herdada do pai. Trata-se de um bem que, além de econômico, traduz o valor da historicidade da propriedade familiar, passada de pais para filhos. A história se cria a partir da ameaça sofrida por Salma, por parte do Estado, e as relações que ela estabelece tanto com Israel como com os seus pares palestinos. O ministro vizinho é casado com Mira, arquiteta, que desistiu da carreira para se dedicar à vida política e social acompanhando o marido. Trata-se de um casal aparentemente moderno, preparado política e socialmente para posição de destaque no cenário mundial. No entanto, a relação conjugal é de dominação explícita da mulher, baseada no valor de que a vida de um ministro de defesa seria algo muito próximo do paraíso terrestre. Em nome da intimidade entre ambos, Mira arrisca dizer o que pensa mas o diálogo não acontece. A partir daí, a convivência entre ambos vai se deteriorando e Mira demonstra toda a sua infelicidade e desalento. O ministro, embevecido com o poder e determinado a defender suas posições ignora a situação, preocupando-se unicamente com sua carreira. O casal tem uma filha que mora no exterior e que o tempo todo aponta questões para a mãe na sua relação com o marido e com o mundo da diplomacia. Trata-se de um relacionamento baseado em afeto e cuidado mútuo, cumplicidade e autenticidade. A filha reconhece as dificuldades que a mãe enfrenta no casamento. Fruto de uma adoção, fica sugerido, que em algum momento, Mira escolheu a convivência do marido em detrimento da convivência com a filha. A maternidade é submetida à subserviência ao marido. O desenrolar do filme mostra a diversidade de relações de gênero que podem emergir a partir de um fenômeno social e sua determinação cultural, no caso, os conflitos conjugais entre Mira e o ministro e entre Salma e o Estado para permanecer com a plantação. Subjaz a eles as relações entre israelenses e palestinos, sempre conflitivas. O fenômeno é revelado nas três dimensões da realidade objetiva1: estrutural (das relações políticas entre israelenses e palestinos), particular (das relações de gênero, classe e geração entre os diferentes grupos sociais) e singular (das relações entre os personagens, na sua singularidade). A atuação de cada um dos personagens expressa distintos posicionamentos no que se refere aos fatos e suas consequências. Merece destaque a relação intragênero feminino estabelecida entre Salma e Mira. Vizinhas, pertencem a culturas e classes sociais diferentes. Durante todo o filme comunicam-se mais pelo silêncio que pela fala. De alguma forma, a comunicação se estabelece, mesmo com a distância social e cultural que as separa. São impressões fortes que as transportam para o mesmo espaço de subordinação à autoridade patriarcal. Mesmo sem interação verbal, fica evidente a empatia entre elas e a tomada de consciência a respeito das suas limitações enquanto mulheres. Ambas, cada uma a seu modo, fazem o enfrentamento de situações relacionadas aos estereótipos que cercam a feminilidade, nas duas culturas. As relações intergêneros são sempre marcadas pela tradição, obediência e subalternidade, tanto entre Mira e o marido, quanto entre Salma e os seus pares palestinos e com o Estado de Israel, revelando relações intra e interculturais, também marcadas pela opressão e subalternidade. Ao mesmo tempo, o filme revela a resistência feminina como núcleo central da história, materializada nas diferentes formas de enfrentamento de situações vividas pelas mulheres sempre subalternas aos homens, situações estas histórica e socialmente construídas, atribuindo e reproduzindo estereótipos nas relações de gênero, nas duas culturas5. A resistência feminina se constrói permeada por determinação, persistência e postura incisiva das personagens principais, mediadas pela sensibilidade e emotividade. Essa característica das mulheres também perpassa as duas culturas bastante diferentes, a israelense e a palestina. No final do filme, a manutenção da posse da plantação de limões por Salma e a saída de Mira do casamento simbolizam a concretização da superação da condição de subalternidade das mulheres, mesmo em meio a tantas adversidades. **Conclusão:** O filme permite a aproximação e a compreensão das questões que envolvem a subalternidade das mulheres de diferentes culturas, à luz da categoria gênero. Constitui uma estratégia lúdico-educativa potente no âmbito do ensino de graduação e de pós-graduação de Enfermagem, na medida em que possibilita a reflexão sobre as questões de gênero e a sua repercussão sobre a vida das mulheres. O cinema, além de apresentar um meio lúdico de aprendizagem, tem a capacidade de promover a reflexão crítica sobre as contradições de gênero e suas formas de enfrentamento e superação. **Contribuições para a Enfermagem:** A análise de filmes a partir de um referencial teórico explícito, no caso, gênero, possibilita o desenvolvimento da criticidade acerca das contradições sociais e suas consequências para o processo saúde doença e a qualidade de vida de mulheres e homens, no seu cotidiano. Como estratégia de ensino, facilita aos estudantes a compreensão da realidade objetiva, possibilitando a identificação, a interpretação e a intervenção nos fenômenos sociais. No caso do filme “Lemon Tree”, a temática também se mostra relevante para discussão de conteúdos relacionados às condições de saúde e qualidade de vida de populações de culturas diferentes. A despeito das especificidades, a subalternidade de gênero perpassa as diversas culturas, sendo marcada por relações de poder desequilibradas entre homens e mulheres.
Referências: 1 Oliveira, SKP; Queiroz, APO; Matos, DPM; Moura, AF; Lima, FET. Temas abordados na consulta de enfermagem: revisão integrativa da literatura. Revista Brasileira de Enfermagem. 2012, jan./fev; 65(1):155-61. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reben/v65n1/23.pdf
2 Ascari RA. Reflexão sobre o cuidado dispensado ao Paciente cirúrgico no perioperatório. Revista Uningá Review. 2014, jul./set.; 2014; 19(2):33-6. Disponível em: http://revista.uninga.br/index.php/uningareviews/article/view/1535/1149
3 Sonobe, HM; Hayashida, M; Mendes, IAC; Zago, MMF. O Método do arco no ensino pré-operatório de pacientes laringectomizados. Revista Brasileira de Cancerologia. 2001; 47(4):425-33. Disponível em: http://www.inca.gov.br/rbc/n_47/v04/pdf/artigo7.pdf
4 Christóforo, BEB; Carvalho, DS. Cuidados de enfermagem realizados ao paciente cirúrgico no período pré-operatório. Rev Esc Enferm USP [internet]. 2009; 43(01):14-22. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v43n1/02.pdf |