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5905986 | EFEITO DE LÁGRIMAS ARTIFICIAIS NA PREVENÇÃO DE OLHO SECO EM PACIENTES CRÍTICOS: ENSAIO CLÍNICO RANDOMIZADO | Autores: Diego Dias de Araújo |
Resumo: **Introdução:** Com frequência os pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), estão inconscientes, em coma, utilizando diversos medicamentos como diuréticos, sedativos e betabloqueadores, em terapia de ventilação mecânica, expostos a ar condicionado, baixa umidade do ar e com os mecanismos de proteção ocular comprometidos(1). Como consequência os pacientes se tornam suscetíveis ao olho seco(2). O olho seco é descrito como uma alteração multifatorial das lágrimas e superfície ocular que resulta em sintomas de desconforto, distúrbios visuais e instabilidade do filme lacrimal, com danos potenciais à superfície ocular(3). Por sua vez o diagnóstico de enfermagem de risco de olho seco é definido como "risco de desconforto ocular e danos à córnea e conjuntiva devido à quantidade reduzida ou qualidade de lágrimas para umedecer o olho"(4). Estudo recente revelou que o olho seco é um problema comum em pacientes internados em UTIs, com incidência de 53%(2). Nesse sentido, a abordagem preventiva com cuidados oculares é de suma importância para pacientes críticos, pois a ausência desses pode causar danos oculares e limitação na realização das atividades diárias comprometendo a qualidade de vida. Em relação a abordagens preventivas para o olho seco em pacientes adultos internados em UTI encontrou-se somente um estudo(2). Este(2) pesquisou duas intervenções de enfermagem (filme de polietileno versus lágrima artificial gel), contudo, o mesmo apresentou como limitação o tamanho da amostra (18 participantes). Assim, a questão do estudo surge a partir da percepção de que pacientes internados em UTIs estão em risco para olho seco devido à exposição a fatores de risco internos ou externos e de que o olho seco pode impactar negativamente a vida dos pacientes. Justifica-se a presente pesquisa na necessidade de se determinar o efeito de diferentes intervenções de enfermagem na prevenção do olho seco em pacientes críticos; além da contribuição do conhecimento na área de enfermagem de cuidados intensivos ao se implementar práticas baseadas em evidência para a prevenção desse diagnóstico, resultando em uma assistência de enfermagem de maior qualidade aos pacientes. **Objetivo:** Avaliar o efeito de lágrimas artificiais na prevenção de olho seco em pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva geral de adultos, de um hospital filantrópico no Brasil. **Descrição Metodológica:** Foram incluídos pacientes clínicos e cirúrgicos admitidos na Unidade de Terapia Intensiva geral de adultos de um hospital filantrópico, que atendessem aos seguintes critérios: ter mais de 18 anos; não apresentar olho seco no momento da admissão; estar em terapia de ventilação mecânica; piscar de olhos menor que 5 por minuto e avaliação na escala de coma de Glasgow menor ou igual a 7. A amostra final foi composta por 140 indivíduos que foram alocados aleatoriamente para os grupos do estudo, sendo 70 pacientes para o grupo lágrima artificial líquida e 70 pacientes para o grupo lágrima artificial gel. Os pacientes foram acompanhados por 5 dias consecutivos e avaliados diariamente através do exame ocular com o teste de fluoresceína, que avalia a presença de lesões corneanas, e pelo teste de Schirmer I, para se verificar a quantidade de lágrima produzida. A avaliação do efeito do cuidado ocular foi medido comparando cada grupo, bem como os dois grupos entre si, através do valor da incidência de olho seco (desfecho primário) encontrado em cada grupo. Os resultados foram apresentados por meio de frequência simples, medidas de tendência central (média) e medidas de variabilidade (desvio-padrão), a fim de caracterizar e descrever a população de pacientes. As comparações entre os grupos foram realizadas por teste exato de Fisher e pelo teste não paramétrico de Mann-Whitney. Foi calculada a taxa de incidência global do olho seco e o efeito das intervenções foi expresso por meio do risco relativo e intervalo de 95% de confiança, sendo este ajustado por fatores de risco (idade, sexo e exposição do globo ocular), em um modelo de regressão de Poisson. O ensaio clínico seguiu as recomendações do _Consolidated Standards of Reporting Trial _(CONSORT) para intervenções não farmacológicas. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais sob o número de protocolo CAAE – 15616313.4.0000.5149. O estudo foi registrado no ClinicalTrials.gov sob a identificação NCT02767258 e no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC) com o identificador primário [RBR-5r8syp](http://www.ensaiosclinicos.gov.br/rg/RBR-5r8syp/). **Resultados:** A incidência global de olho seco até o 5º dia de internação foi maior no grupo lágrima artificial líquida, sendo que, dentre os 70 pacientes que a receberam, 15 (21,4%) desenvolveram o desfecho, e entre os 70 pacientes em que foi implementada a lágrima artificial gel, 6 (8,6%), apresentaram o olho seco. A intervenção, lágrima artificial gel mostrou-se mais efetiva (RR = 0,40; IC 95% 0,166; 0,964; p = 0,043) na prevenção de olho seco, quando comparada a lágrima artificial líquida. Após o ajuste do modelo de regressão de Poisson por fatores de risco (sexo, idade e exposição do globo ocular) identificados na amostra, o efeito da intervenção lágrima artificial em gel (RR = 0,36; IC 95% 0,140; 0,963; p = 0,044) continua apresentando-se como uma intervenção com significância estatística em relação à intervenção lágrima artificial líquida. **Conclusão:** Os resultados do presente estudo evidenciaram que lágrima artificial gel é mais efetiva (RR = 0,40; IC 95% 0,166; 0,964; p = 0,043), quando comparada a lágrima artificial líquida. Em relação a prática assistência do enfermeiro, durante o levantamento dos dados sobre os pacientes, é essencial que o profissional identifique os possíveis fatores de risco relacionados ao olho seco e implemente precocemente intervenções que sejam capazes de prevenir ou minimizar o problema, bem como outras complicações na superfície ocular que poderão impactar negativamente na vida dos pacientes. A implementação de estratégias de educação em saúde a respeito da temática e de treinamentos para capacitar os profissionais quanto a avaliação ocular são estratégias essenciais. **Contribuições/ implicações para a enfermagem:** Acredita-se, que este estudo poderá contribuir para o cuidado ocular de pacientes internados em UTIs de adultos, além de ser fundamental para que futuros estudos com pacientes críticos possam colaborar realmente representando julgamentos clínicos acerca do conjunto de respostas dos pacientes a problemas reais ou potenciais e que, consequentemente contribuam para uma assistência de enfermagem de maior qualidade, baseada em fortes evidências científicas.
Referências: 1. Carvalho EC, Oliveira-Kumakura ARS, Morais SCRV. Raciocínio clínico em enfermagem: estratégias de ensino e instrumentos de avaliação. Rev Bras Enferm 2017;70(3):662-8. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0509
2. Ciampone, MHT. Tomada de decisão em enfermagem. In: KURCGANT, P.
Administração em enfermagem. São Paulo, EPU, 1991, p.191-206
3. Chaimowicz F. Saúde do idoso. Nescom UFMG: Belo Horizonte, 2013. 2ª ed. 12-Kane RL,
4. Ouslander, Abrass IB, Resnicl B. Essentials of Clinical Geriatrics.McGraw Hill, 2013. 7ª ed.
5. Santos, JC; Ceolim, MF. Iatrogenias de enfermagem em pacientes idosos hospitalizados. Rev. Esc. Enfermagem USP, 2009; 43 (4): 810-7. |